Kingston
O mini-bus parou em muitos lugares ao longo do caminho até
finalmente ficar abarrotado de pessoas. Para terem uma ideia eu praticamente viajei
abraçado com minha mochila, o que no fundo foi positivo pois me apoiei nela
para tirar um cochilo. Mesmo com o grande número de pessoas, a maioria viajava sentada. A viagem foi uma experiência muito interessante pois o que senti ali
foi o cotidiano das pessoas que devem acordar cedo, ir até a estrada
caminhando e aguardar o ônibus cheio no acostamento, para finalmente chegar ao
seu destino e ganhar a vida de alguma maneira, garantindo o pão de cada dia.
Nesse caminho há um pedágio, o único que vi. Está na
T1, uma das melhores rodovias do país, a Bandeirantes jamaicana.
Se você ainda não leu o primeiro relato da Jamaica recomendo entrar neste link para então continuar a segunda parte. :)
Foto no início do post: Museu do Bob Marley.
| Pinturas clássicas nos bares ao longo do caminho até Kingston, sempre coloridas e com mulheres. Custou mas consegui tirar uma foto boa! |
No caminho o taxista conversava muito rápido com um sotaque forte de pátoa. Eu não entendia muito e só fazia uma cara simpática, afinal, minha atenção estava voltada para as ruas e construções de Kingston. Chegamos no hostel e já fui direto tomar um banho para refrescar, estava um calor infernal naquele dia. Kingston é uma cidade mais quente que as demais, como todas as grandes cidades ao redor do mundo vestidas com asfalto e concreto.
Saí para conhecer o centro, à pé mesmo. Do Hostel até
a moderna rodoviária central, a Half Way Tree Transport Centre, eram
aproximadamente 15 minutos. Há muitos shoppings e comércio no caminho, o
movimento nas calçadas e ruas era intenso e no principal cruzamento, entre as
Avenidas Half Way Tree e Hope, um congestionamento dava boas vindas. A energia
de metrópole imperava, assim como o clássico contraste entre ricos e pobres.
| Torre do relógio no centro. |
Saímos do Cassino e a Tessi nos levou até o centro, no
Susie’s Cafe, onde aconteceria um evento especial chamado Mojito Mondays. Ficamos
ali conversando um pouco e de repende a galera começou a mandar uns passos de
dança no meio daquela área aberta, tipo um boulevard. Foi muito diferente, como
uma roda de hip hop, porém os grupos mostravam seus passos sincronizados, como
que ensaiados. Até tentamos arriscar uns passos mas não deu muito certo! Um
momento um pessoal vinha, depois era a vez de outro grupo, e assim foi noite
adentro, muita música e dança no meio de Kingston Town. Segue um vídeo de parte
do evento que encontrei no you tube pois não consegui gravar.
No outro dia encontrei novamente o Jorge, que chegava
de Negril. Fui fazer o tour cultural com ele, começando pela Devon’s House, que
é uma mansão colonial construída em 1881 pelo primeiro milionário negro na
Jamaica, George Stiebel. Conta com uma arquitetura muito bonita, além de peças
de porcelana e outros itens de época para serem apreciados.
| Devon's House. |
O negro segura a cabeça com a mão e chora, e chora, sentindo a falta do rei.
A visita é guiada e muito interessante, é um casarão mas
ainda assim um lugar simples, sem muito luxo. Passamos por todos os cômodos,
mini-estúdio e também na parte onde ainda estão as marcas de balas na parede,
resultado da tentativa de assassinato em 1976. Lá tem até um mini cinema que passa
rapidamente sua história, muitos souvenirs também podem ser comprados ali.
Após essa aventura decidi ir por minha conta até o estúdio
Tuff Gong, onde aconteceram as gravações do Bob Marley e sua banda The Wailers.
Peguei um táxi pois o estúdio fica um pouco distante do centro. Para ser
sincero, fica em um lugar bem isolado.
Lá fui recebido por um negão rasta que me guiou pelas
instalações, aparentemente um galpão mas, na essência, foi o local onde tiveram
origem muitos ensaios e canções internacionalmente famosas, marcadas na
história. Visitamos primeiro uma sala com alguns instrumentos, depois “O” estúdio e também a
parte onde prensavam e embalavam os discos de vinis para finalmente
comercializar pelo mundão. No estúdio fiquei um tempo observando as paredes de
madeira, aquele ar propício para gastar a criatividade. Tinha uma bandeira
gigante pendurada desde o teto, com o desenho de um leão, símbolo da cultura
rastafari.
| Estúdio Tuff Gong. |
| Símbolo da união entre povos, no caso, negros e brancos. |
| Praça no centro da cidade. |
Saí do estúdio muito contente pois considero a música
a maior e mais forte das artes, unindo pessoas, garantindo a livre expressão e
derrubando muros, não importando quão altos. Ali pude conhecer o berço de
muitos gritos por um mundo mais equilibrado e livre.
Voltei ao hostel e naquela noite fiquei apenas
conversando com o pessoal, estava bastante cansado e resolvi tirar a noite para
recarregar. No outro dia saí caminhando ali por perto e, num dos centro
comerciais / feiras, comprei alguns vinis 12" de reggae, meus presentes da viagem.
Encontrei o Jorge para almoçar em um bar-restaurante esportivo, famoso, chamado
Tripple Century. É um bar grande e de excelente decoração, ótima comida e, de
certa maneira, refinado. Ali me despedi do Jorge, só me encotraria com ele em
Port Antonio, próxima parada.
Peguei um mini-bus novamente, na rua ao lado da
estação central Half Way Tree e segui para o norte, dessa vez cortando as Blue
Mountains, famoso destino na Jamaica. O visual dessa parte da viagem foi
sensacional, com muito verde.
| Montanhas no caminho entre Kingston e Port Antonio. |
Port Antonio
| Paisagem no caminho até a Lagoa Azul. |
Não existe uma rodoviária propriamente dita e o mini
ônibus parou num tipo de praça no centro. Não tinha reservado nenhuma
hospedagem pois não sabia exatamente qual dia chegaria, assim, perguntei para
umas pessoas ali onde se concentravam as pousadas e hostels. Fui “escoltado” por
um rapaz sem ter pedido, que foi conversando e por fim me ajudou ao guiar-me até
uma das pousadas, dei um par de dólares para ele pela ajuda. Ele já queria combinar
um passeio completo de táxi no próximo dia mas falei que iria pensar, tinha
acabado de chegar: “easy, my man”!
| Vista da pousada, centro de Port Antonio ao fundo. |
A viagem foi cansativa e nesta primeira noite só saí
para conhecer os arredores do centro, parando em um boteco copo-sujo para tomar
uam Red Stripe e curtir o ambiente. No outro dia já estava renovado, pronto
para a próxima aventura.
Fui até o centro para fazer um levantamento rápido dos
preços dos táxis, peguei o mais em conta (em torno de 20USD) rumo à famosa
Lagoa Azul, que junto com a Turtle Island foi também parte do cenário nas
gravações do filme homônimo.
A costa de Port Antonio foi contemplada com lindas paisagens,
muita natureza e o mar de cor indescritível, um misto de azul e verde claro.
Não é a toa que muitos artistas de hollywood compraram casas ali depois que a cidade
foi adotada como um modelo de paraíso em meados do século XX pela indústria
cinematográfica. Outros filmes famosos feitos ali foram “Club Paradise” e “Cocktail”.
Chegando na região da Lagoa notei um bairro bem
elitizado, parecido com os condomínios luxuosos do Rio ou litoral norte de São
Paulo. Muros brancos altos protegendo casas de pés direitos altos e janelas proporcionais
de vidro indo até o teto. Havia conversado com o Jorge, que tinha acabado de
chegar em P. Antônio e combinamos de nos encotrar ali.
Enquanto ele não chegava caí na Lagoa para nadar, a
água estava muito gelada mas valeu a experiência. Tem um bar abandonado na
lagoa que, segundo o pessoal, foi um badalado no auge da parceria com hollywood. Relacionamento do qual só restaram troncos caídos e palhas do teto esburacadas.
Assim que o Jorge chegou pegamos um passeio de barco
pela costa próxima à Lagoa, até a praia San San e retornando para a Lagoa.
| Passeio de barco da Lagoa Azul até a Praia San San. |
| Paisagem próxima da Praia San San. |
A Frenchman’s é uma praia quase privada, com acesso
por uma portaria (4USD para entrar). Ela é guardada nos extremos por duas pequenas
montanhas que acabam completando a paisagem. Lá tem somente um restaurante que
serve alguns pratos tradicionais, excelente pedida para matar a fome de quem já
havia nadado e caminhado por toda a manhã.
| Frenchman's Cove. |
| Fazendo arte na Frenchman's. |
Para fechar o passeio voltamos para o centro e jantamos
em um restaurante bastante conhecido de comida do mar, chamado Wilkes Cuisine.
No outro dia já me despedia de Port Antonio. Próxima parada: Ocho Rios.
Ocho Rios
| Tambor de Aço na entrada da Dolphin's Cove. |
Devido à sua proximidade com esta última, Ocho Rios é
bastante turística. É uma cidade maior, com bares, hotéis e restaurantes grandes,
preparados para proporcionar uma boa experiência a todo tipo de turista. Também
conta com parques e cachoeiras com ótima infra-estrutura.
Para chegar em “Ochi” (apelido dado a cidade pelos
locais), peguei um táxi com o Jorge. No final foi rápido e o preço dividido em
2 compensou. Lá fiquei hospeado em outro Reggae Hostel, mais um da rede,
reservado no Hostel World. O hostel é
excelente, é um edifício de 3 andares ao lado de uma praça no centro, de frente
para a praia e que ainda conta com um bar no terraço, ao ar livre. Ali conheci
muitas pessoas, uma galera da Irlanda, outra moça da Alemanha que estava no seu
ano sabático e mais alguns locais que passavam por lá para curtir a atmosfera
do lugar. Até tatuador mexicano tinha!
No primeiro dia fomos à Dunn’s River Fall and Park de
táxi compartilhado. É uma cachoeira com muitas quedas que foi transformada em
um point turístico. Pagamos aproximadamente 20USD para entrar no parque e então
caminhamos até a praia, onde ela deságua. A partir da praia, subimos por suas
quedas de volta a entrada do parque, uma ótima aventura. No meio desse caminho
é possível tomar banhos nas quedas da cachoeira, nadar nas piscinas formadas
pelo rio e também sacar ótimas fotos.
| Praia onde a cachoeira do Dunn's River termina. |
| Dunn's River Falls. |
Como havia tempo resolvi ir visitar outro parque mega
famoso ali, o Dolphin’s Cove. Ali me senti em um parque temático, tipo Hopi Hari.
Eles literalmente transformaram uma parte da costa em um reduto pirata, com um
mini zoológico de pássaros, tanques com golfinhos e arraias, peixes diversos e
tubarões pequenos.
| Araras no Dolphin's Cove. |
| Apresentação no Dolphin's Cove. |
Particularmente não é o meu estilo preferido, é um lugar bastante artificial mesmo com todos esses seres vivos, porém, vale pela experiência dos espetáculos, ótimos guias e ainda bares para relaxar. A paisagem como sempre é única.
Existem vários pacotes que são escolhidos já na
entrada e incluem visitação simples, fotos com golfinhos, nadar com golfinhos,
experiência de pegar uma arraia na mão, mergulho, entre outros. Os preços vão de 40USD a salgados 160USD. Eu optei por tirar
só fotos com os golfinhos, arraias e também nadar com snorkel no meio dos
peixes.
Depois de toda essa aventura deitei em uma cadeira ali
mesmo em uma pequena faixa de areia e esperei a tarde passar.
À noite fomos todos ao Margarittaville de Ochi, como
comentei no post de Montego Bay, essa rede de bares é muito famosa ali no
caribe e vale conhecer. Fiquei só por um
tempo conversando com o pessoal do hostel, no meio das danças e músicas seccionadas.
No outro dia combinamos todos de visitar o Blue Hole,
nas Island Gully Falls, outro parque com muitas cachoeiras e piscinas naturais.
Este um pouco mais roots. Alugamos uma van no hostel e toda a galera foi junta,
ouvindo o bom e velho reggae até lá.
Como nessa caminhada tem muitas pedras
escorregadias eles recomendam alugar umas sapatilhas próprias para andar por
ali, 8USD para alugar na entrada. 20USD para comprar definitivamente. Caminhamos
por um tempo até chegar no primeiro poço, todos saltaram para dentro sem
pestanejar. Trilha acima encontramos mais cachoeiras e piscinas para
nadar. Um passeio bem prazeroso. Um detalhe que percebi nesse caminho foi que o
guia não era muito consciente em relação ao ambiente pois em alguns momentos
jogou papéis sem pensar na trilha, pedi para ele guardar até sairmos dali mas
ele pareceu não entender o motivo.
| Pessoal de sapatilhas no Blue Hole. |
| Saltando no Blue Hole! |
Para fechar Ochi com chave de ouro fomos até uma festa
indicada pelo barman do hostel. Não me perguntem onde foi pois um táxi nos
levou para os cantos da cidade e lá encontramos um terreno com uma estrutura de
DJ montada e grandes caixas de som. Ficamos ouvindo o som clássico dos bares
e baladas jamaicanas: uma mistura de reggaeton onde o DJ abaixa o volume subitamente
para gritar algumas palavras. Isso acontece umas 10 vezes por música e acaba enjoando, queria poder ouvir a música inteira do início ao fim. As danças
eram como sempre eróticas e a noite seguiu neste compasso até umas 3, 4am.
No último dia em Ochi fui andar pela praia na frente
do hostel e também comprar algumas lembraças nas feirinhas que tem ali
na avenida principal. Peguei um táxi compartilhado com o Jorge rumo à Montego
Bay. Lá ficamos em outro hostel próximo ao centro dessa vez. Chegamos à noite e
como minha energia já estava se esgotando resolvi ficar por ali mesmo,
conversando com o Jorge e outro pessoal do hostel, lembrando as aventuras na
ilha rasta. No outro dia peguei o vôo de volta ao Brasil, com escala em
Atlanta.
| Praia de Ocho Rios. |
| Jogando um tipo de ludo com o pessoal na praia. :) |
Bye Jamaica, Respect!

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